DEMOCRACIA e IDEOLOGIA - Parte 2
DEMOCRACIA E IDEOLOGIA
Parte 2
Na democracia representativa, o “representante” (vereador, deputado,
senador) fala em nome da ‘base eleitoral’ que o elegeu, não em seu nome
(na “teoria democrática radical”, de Thomas Jefferson, etc) Assim o tom
arbitrário dos atuais representantes destoa muito do ideal de vontade
popular, estando os representantes distanciados de seus eleitores, e pro-
pondo leis das quais se dizem ‘donos’, como se o importante fosse
inventar leis e mais leis, e não o que o povo deseja (“Leis demais e uma
Constituição idealista não enche a barriga de ninguém”, um colunista
já ironizou) Por outro lado, as democracias ditas “populares” caíram
nas mãos de demagogos e ditadores que não hesitaram em criar ditaduras
do “partido único”, dizendo agir assim em nome do povo (vide os
‘direitistas’, fascistas, etc, e também os ‘esquerdistas’, com Mao, Pol Pot,
Ceaucescu, etc)
Contudo, em pleno “multipartidarismo” com a pluralidade de
opiniões e interesses (o partido depende das bases eleitorais, sua
legitimação depende do grau de comunicação com as mesmas e o
nível de ‘aprovação’), ocorre uma perda de legitimidade,o que permite
uma ampla manobra demagógica, onde tudo é ‘em nome do povo’, e
nada de consultar esse mesmo ‘povo’. (nota 3) E todos se dizem plenos
democratas! Até os religiosos se dizem democratas e até obviamente
os fascistas do século 21 virão dizendo-se “democratas”. É o que se
constitui um “totalitarismo retórico do discurso democrático” (vide
Chomsky, Bobbio, Kurz, Zizek, etc) onde a democracia não passa
de mais um discurso disponível no mercado.
Culpa da “democracia liberal”? Afinal, temos mercado livre, livre
expressão, liberdade de associação, imprensa livre, Estado laico,
liberdade religiosa, tudo isso, mas sem real “democracia econômica”,
onde as disparidades de renda e poder financeiro faz com que ‘os de
cima’ mandem e ‘os de baixo’ obedeçam. Como a “propaganda é a
alma do negócio” (e sabemos disso desde Goebbels!) e “é melhor
dizer que fez do que fazer” (algo de Machiavelli?), a “democracia
liberal” tornou-se mero ‘slogan’, uma bonita ‘palavra de ordem’, tipo
“lutar pela democracia” ou “morrer pela democracia” ou ainda “a
superioridade da democracia”, mas sem perguntar qual democracia!
E sem planejar como vamos construir essa “democracia”! e dizem
que já estamos exportando a democracia (digo, o Ocidente), quando
os Estados Unidos invadem nações para “exportar a democracia”,
assim na Coréia, na Indochina, no Haiti, no Afeganistão, no Iraque,
e, futuramente, no Iran), como se a democracia fosse um produto
com receituário, a ser aplicado em qualquer lugar, sem analisar o
contexto sócio-econômico! (nota 4)
O problema da democracia é o excesso de promessas. Dizer que
vai resolver tudo e trazer paz e liberdade. Mero discurso. A democracia
não deve ser baseada na “liberdade” ou na “felicidade”. Pois ‘liberdade’
não existe (“ou todo mundo é livre ou ninguém é livre”, segundo
Bakhunin), assim erguer a liberdade como estandarte é encenar outra
propaganda ideológica (sem suásticas ou foices-e-martelos). E a
felicidade? Promessas impossível, uma vez que somos insaciáveis,
insatisfeitos por condição existencial (segundo Freud e Sartre), e
felicidade não passa de promessa para as peças publicitárias (sempre
inventando novas necessidades, para que o consumo se perpetue
ad aeternum)
A democracia deve basear-se no diálogo, na representatividade
e na tolerância, pois sem pilares surgem fissuras para a discrimina-
ção e o autoritarismo, torna-se paraísos dos demagogos, com um
acúmulo de promessas não-cumpridas a gerar frustrações, a perder
a legitimidade junto às bases eleitorais, que não hesitarão em entre-
garem o poder a um grupo de ‘salvadores da pátria’. (Alguns acham
mais cômodo – e mais barato – manter uma ‘família real’, contudo
é retrocesso. A divisão de Poderes, os custos do Parlamento, as
viagens do Executivo, tudo constitui o elevado preço a se pagar
pelo equilíbrio instável da democracia.)
Se a demagogia atira a democracia nas garras dos autoritarismos,
a luta por hegemonia arrasa a legitimidade, quando os Estados
passam a pressionar (e controlar) seus cidadãos, como uma “guerra
fria” constante. É definido quem pode se pronunciar, e quem pode
protestar, num jogo de cartas marcadas onde a ‘revolta’ já está no
enredo, onde em nada poderá abalar o poder constituído, mas, ao
contrário, o fortalecendo mais, em nome da ‘segurança nacional’,
do bem-estar futuro, em que um neo-nacionalismo (em plena era
de globalização) não hesita em resvalar para um ‘xenofobismo’.
(nota 5)
Tendo em mente a complexidade do tema, este ensaio (e todos
os outros) deseja apenas uma olhada os progressos e deficiências
do viver democrático. Do mundo democrático que é preferível ao
‘autoritarismo sutil’ no qual vivemos. Democracia não existe, está
sendo construída (e se quisermos construí-la). E é de se pensar,
se a democracia, o “menos pior dos sistemas políticos”, segundo
Churchill, ainda nem se estruturou, o que esperar de sistemas ideais,
idealistas e utópicos, como são exemplos o comunismo e o
anarquismo?
fev/mar/08
Leonardo de Magalhaens
Escrito por leonardo de magalhaens às 11h24
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