DEMOCRACIA e GLOBALIZAÇÃO
DEMOCRACIA E GLOBALIZAÇÃO
A intesificação dos movimentos internacionais de transferência de produtos e serviços, finanças e bens culturais, que atende pelo nome de “Globalização” (ou “Mundialização”, para os franceses) levantou o prognóstico do enfraquecimento dos Estados (as Nações) e o domínio de um mercado sem fronteiras. Realmente vivemos numa “aldeia global”.
Essa tendência, visível desde o fim da "guerra fria", quando se destacou o “motor” da economia norte-americana, se tornou possível com o avanço das telecomunicações e transações on-line, além das viagens supersônicas. A transmissão de produtos e serviços, a divulgação de bens culturais levou a uma mútua influência, com uma economia global e também uma música pop global, e uma literatura mundial (um dos sonhos de Goethe).
A idéia de "aldeia global" (desde MacLuhan, famoso comunicólogo) enfatiza aspectos positivos. Um exemplo é o “fim das fronteiras”, onde o direito de ir e vir pode ser agora exercido. Mercadorias e viajantes passam de um lado a outro do globo (como sonhava Jules Verne em seu clássico “A Volta ao Mundo em 80 dias”) numa amostra dos intercâmbios possíveis e vantajosos. “Intercâmbios de diferenças”, dizem alguns.
O multiculturalismo seria esta "aceitação do Outro", com uma maior tolerância a Alteridade, numa superação dos preconceitos, numa miscigenação cultural e étnica (casamentos inter-raciais não faltam!) Contudo, outros lembram que essa “aldeia global”, na verdade, causa uma padronização devido a ‘hegemonia cultural’ de países com maior ‘capital cultural’ (investimentos em bens culturais, i.e., literatura e cinema, música e conteúdos virtuais), que exportam sua cultura para todo o mundo, jogando as restantes no ostracismo.
Ocorre assim uma "assimilação de cultura", com a extinção de particularismos, com a morte de idiomas, com a exclusão de eventos folclóricos de cunho regional, peculiar. Tipos de comida que são padronizados (por exemplo, com a expansão dos ‘fast-foods’, ou o predomínio da comida enlatada). Assim, o importante seria uma defesa das culturas 'periféricas' contra uma "uniformização cultural" movida pelas nações ricas do centro do sistema global.
Mas uma 'aldeia global' com centro e periferia? sim, pois as assimetrias do capitalismo não diminuíram (como sonhava um Adam Smith), mas, ao contrário, somente aumentaram. (Nunca tão poucos ganharam tanto!) Mas não se trata de um ‘livre mercado’ de ‘livre comércio’? Sim, mas que as economias fracas se protejam! Mas ‘livre comércio’ não significa o fim dos ‘protecionismos’? Seria, contudo até as economias fortes se protegem! Vide os protecionismos norte-americanos (aço, soja, carne, etc), francês (agrícolas, carne, etc) e britânico (principalmente carne), que não hesitam em liberar ‘subsídios’ para os seus setores deficitários, que poderiam sofrer a ‘livre concorrência’ de outros mercados (principalmente dos “mercados emergentes”, p.ex, Índia, China, Brasil, Argentina, etc)
Se a globalização ameaça as peculiaridades culturais (ainda que reféns de um ‘etnocentrismo’), com a avassaladora expansão das comunicações, com inovação diária dos meios (mídia), mas pouca distribuição (vide a concentração de computadores nas classes A, B e C) , o processo também ameaça os mercados em ascensão, quando as multinacionais passam a assumir o controle. Pois existem multinacionais (principalmente norte-americanas, japonesas e européias) com rendas maiores que as de muitos estados (ditos soberanos).
Empresas multinacionais que processam os Estados, alegando queda nos lucros! E usam ‘sanções comerciais’ contra governos (acusados de “concorrência desleal”) e chegam ao ponto de usarem chantagem contra os trabalhadores organizados (sindicatos, associações, os órgãos estatais responsáveis pela política do Trabalho) com uma mudança da empresa para outros Estados (países), o que leva a uma drástica redução dos direitos trabalhistas (tão duramente conquistados ao longo de décadas!)
O que gera esta política? Maior hegemonia de núcleos empresarias, que detêm as novas tecnologias, segmentando assim as oportunidades, o que gera a mundialização das desigualdades, com a expansão do neoliberalismo e a decadência dos “mercados emergentes” (como foi o caso dos “tigres asiáticos”)
Desde a década de 1990, o sistema global vem lidando com crises pontuais que logo se alastram (México, Ásia, Rússia, Brasil, Argentina, etc) tal um surto epidêmico, contagiando as movimentações das Bolsas em todos os recantos. Uma multipolaridade vem assumindo o lugar de uma bipolaridade (EUA e União Européia, desde o fim da URSS), onde as assimetrias passam a se acentuar dentro dos próprios mercados (com o lucro das classes A e B) e exclusão de camadas populacionais inteiras (favelas no Brasil, na Indonésia, áreas de miséria na Indochina, epidemias na África, guerras civis na África e no Oriente Médio, etc), uma vez que a liberalização destrói o “Welfare State” (Estado de Bem-Estar Social) (ou nem possibilita a construção do mesmo) ao destruir a “rede de amparo social”, com os serviços básicos de saúde, educação e segurança pública, que devem ser distribuídos a toda a população e não somente à parte privilegiada que pode pagar.
Os acordos comerciais (com suas sigas herméticas: ALCA/FTAA, NAFTA, OMC, GATS, etc) são tecidos de elites para elites, sem consulta popular e até CONTRA a vontade popular, em encontros e cúpulas (meetings and summits) onde os líderes populares são mantidos à distância, ainda que os promotores do “neo-liberalismo” se utilizem de toda uma “ideologia liberal”, e defesa da “liberalização democrática”, como se a verdadeira democracia só pudesse ser a “liberal”. (E esquecem assim os enfoques sociais do socialismo – aqui não uma coletivização ou estatização, mas uma ‘socialização’ dos meios de produção e geração de renda). Um liberalismo sem socialismo é apenas “darwinismo social”, onde alguns lucram e outros são excluídos (ou se deixam explorar)
Todos à mercê de um 'mercado livre' de 'capitais voláteis', onde as transações financeiras escapam ao controle dos governos (o que muito se assemelha aos lucros dos narcotráficos), com volumes monetários imensos nas mãos de uns poucos mega-investidores (um exemplo é o Sr. Soros, que muito lucrou com a derrocada da Rússia) que não acatam regulamentações e controle estatais. E os próprios investidores que sofrem com as “bolhas econômicas” inflacionadas por eles mesmos, quando levam fortunas de um Estado (país) para outro, quando elevam as dívidas públicas e compram “precatórios”, papéis da ‘dívida pública’, jogando literalmente com as rendas e os destinos de povos e gerações. Pois o que é a “bolha especulativa” senão “o crescimento de uma variável econômica sem fundamento real” (fonte: Rudge, L.F., Dicionário de Termos Financeiros, 2003), na verdade, um capital que aumenta a si mesmo, sem base produtiva (sem atuar no processo produtivo, sem gerar emprego e renda para outros), mas num mundo virtual de empréstimos, investimentos, juros, negócios ilícitos, etc.
Quando da queda dos "tigres asiáticos" e do Japão, muitos elogiaram a China. Invejam a ascensão da China? Mas a China sequer é uma “democracia”! É um Estado fechado, autoritário, coletivista, onde a única vantagem – a PLANIFICAÇÃO – os Estados ditos democráticos poderiam utilizar sem deixar de serem democráticos! Pois o que se percebe é o Mercado tão instável como um ‘doente mental’ (afinal, “conduta ciclotímica”, usada em economia para os “ciclos de expansão e crise” dos mercados globais, é tirada da Psiquiatria, quando se refere aos “estados de euforias e melancolias”, que se alternam nos ciclos das crises mentais!
Afinal, que Globalização queremos? Uma liberal e desigual, ou uma coordenada, social e democrática? Democracia não existe num ‘mercado livre’ de lobos livres meio as ovelhas livres. como controlar democraticamente os mercados? Através de uma planificação e uma regulamentação através dos Estados democraticamente organizados. Senão, quem vai continuar mandando são os senhores investidores, os senhores economistas, os senhores donos de multinacionais, aqueles que nunca consultam qualquer ‘base popular’, mas somente compreendem números que deslizam em monitores e telões das Bolsas de Valores.
Fev/08
Leonardo de Magalhaens
Escrito por leonardo de magalhaens às 16h35
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