DEMOCRACIA e RELIGIÃO (p. 2)
Democracia e Religião - ensaio
parte 2
Como conciliar uma democracia com um sistema religioso? Se a Democracia pressupõe tolerância – pois sem tolerância não há diálogo, e sim mútuo extermínio – e os religiosos querem criar um mundo segundo moldes arcaicos, rabiscados em códigos velhos e velhacos que apenas legitimam a opressão. O pai sobre o filho, o homem sobre a mulher, o sacerdote sobre o leigo.
Asseguram apoiar a família e a tradução diante da ‘anarquia’ reinante. Mero discurso! Não há uma “anarquia” – nem no sentido positivo, nem no negativo – mas a “construção de uma democracia”. Ainda falha, mas indispensável. A Democracia tolera os religiosos, mas os religiosos pouco suportam a Democracia – adorariam estabelecer o Reino de Deus na terra, uma severa teocracia (Vejam o Cromwell na Grã-Bretanha, no século 17, ou o Khomeini no Irã, século 20!) A Inquisição foi um fenômeno isolado, temporal e geograficamente? Decerto que não. Fazia parte de uma ampla campanha de Contra-Reforma. Invadia corpos e consciências, para ali marcar a sua fúria devocional.
Se a família está em crise – e está mesmo! – os religiosos são os únicos que propõem a ‘cura’: a volta ao sacramento, aos rituais, à tradição. Não percebem que a família é um fruto de contextos sociais e que os contextos mudam – a família perde espaço para o mercado, para o livre relacionamento, para as trocas de casais, para o não-compromisso – pois assim se diversifica as satisfações e se ganha mais dinheiro.
Contudo, acusando os ‘neo-casais’ de pecadores, os religiosos providenciam uma cura à altura: a conversão aos Cânones. Que abandonem as ‘vidas de pecado’ e reingressem no seio das religiões. E o mundo pós-moderno? Que se deixe absorver pelas igrejas. Festas católicas, padres-artistas, bailes gospel, shows de rock cristão, moda evangélica, gravadoras pentecostais, arquitetura neo-romana, todo um mundo fake neo-cristão, feito sob medida para “trazer o mundo para dentro da igreja”, até que o mundo “fale o nosso idioma”: a crença e a obediência.
A religião atua como uma forma de ocupar lacunas e descasos do Estado, quando este não é capaz de assegurar oportunidades para todos, perpetuando uma ordem social excludente. Populações sem apoio estatal, e sem convivência política, somente encontram conforto na vida religiosa.
A vida religiosa como forma de “ascensão social”, com novas amizades e amores nos intervalos dos cultos e nas atividades devocionais, onde alianças, casamentos e sociedades são negociados em nome do Senhor, contudo sem temor evangélico, mas como forma de contornar a vida moderna, o descaso do Estado, e assim arrumar emprego e visibilidade social.
Com o crescimento do quadro de ‘evangélicos’, que afluem do catolicismo dissociado das bases sociais – que hoje se transmuta para um catolicismo carismático, ao estilo neo-pentecostal – o mercado encontrou mais um “segmento de clientes em potencial” ao qual seduzir com promessas de satisfações materiais e espirituais. Produtos voltados para um público que julga o louvor onipresente, até num bibelô, até numa embalagem de presente, até num invólucro de bala.
A religião torna-se espetáculo e não “crescimento espiritual”, com interesses maiores que a “fé”. Por exemplo, a busca por emprego, lucros, amores, com a ‘corrente’ dos empresários, dos namorados, etc. “Vá ao templo da fé e seu desejo se fará real” – discursos não muito diferentes dos anúncios de shopping center. Seduções que um bom líder carismático não pode deixar de usar.
O líder religioso enquanto ‘ordenador’ do estilo de vida, numa dominação religiosa que é visível ameaça ao Estado laico. Há uma confusão de esferas de fé e da política, quando o crente diz: “Vou votar no fulano, pois ele é da minha igreja”. Não há um voto na competência política, há um voto na liderança religiosa.
Todos sabemos (basta ler Savonarola, Maquiavel, Richelieu, Mazzarino, Hobbes, Comte, Nietzsche) que o ‘poder religioso’ é um dos maiores poderes: coordena corpos e almas. E faz o que quer, em nome de uma Divindade, de uma Transcendência, sem prestar contas a qualquer poder temporal. Ao contrário: querem SUPRIMIR o poder temporal. Pois os Papas não coroavam imperadores? Pois os Papas não apadrinhavam reis? No máximo, o poder temporal seria um dos ‘cordões’ do “poder espiritual”, e quem não concordasse estaria condenado ao fogo do inferno, não sem antes passar pela ‘pena capital’.
Este poder religioso nasce da ignorância popular, que temendo a morte e o Além, deposita tamanha confiança nas mãos dos sacerdotes, num voto de confiança e obediência. Na falta de um envolvimento político, na falta de um “conteúdo político”, as pessoas – ainda não cientes do papel de “cidadãs” – se permitem apegar aos dogmas religiosos, e esquecem do aqui e do agora. O governo do cotidiano é desprezado – daí a alienação, a figura do analfabeto político – e passam a se preocupar com um futuro utópico e messiânico. Não é o esforço popular – julgam eles – que vai mudar o mundo, mas a “intervenção divina”. E enquanto essa “intervenção divina” não acontece, continuam seguidoras dos dogmas, indefesas ovelhas no rebanho da vez.
Essa falta de envolvimento com a política e conseqüente adesão popular na “construção da Democracia” é que levam os regimes em vias democráticas a mergulharem em tiranias, ditaduras e golpes de Esquerda e de Direita, em messianismos (vide um Hitler, um Khomeini, a se dizerem ‘salvadores’), em teocracias onipotentes.
A Democracia não é anti-religiosa, é tolerante. Contudo, a Democracia perde com a dominação religiosa, perde cidadãos, enquanto se acumulam devotos, que vivem uma sedução de retrocesso, não percebem que estão a lamber o próprio vômito.
Dez/07
Leonardo de Magalhaens
Escrito por leonardo de magalhaens às 20h05
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DEMOCRACIA e RELIGIÃO (inicio)
DEMOCRACIA E RELIGIÃO
Agradecimentos ao Filósofo Rodrigo Starling
Desde o alvorecer das idéias iluministas, no século 18, vivemos em sociedade com um dilema irreconciliável: a Igreja ou o Estado. Desde a separação igreja e Estado, com suas abrangências de cunho temporal e espiritual, o Ocidente tem permitido florescer a liberdade de pensamento e crença. Não há uma ‘religião estatal’ a determinar a crença e os ritos. No máximo, encontra-se uma religião social: a devoção ao Estado.
Irreconciliável dicotomia: a vida agora ou a vida no além. Que está na Luz: os iluministas ou os religiosos? Os Iluministas acusam os religiosos de ‘obscurantismo’, de venderem consolo espiritual, enquanto os religiosos insistem em que os livre-pensadores vivem nas trevas onde “há choro e ranger de dentes”. Ambos, no entanto, se julgam na ‘luz’. Uns na Luz do Saber, os outros na Luz dos Evangelhos. Ninguém quer habitar as ‘trevas’.
Os religiosos acusam os livre-pensadores de venderem promessas. Que a verdadeira liberdade, igualdade e fraternidade só existem no seio da Igreja, na aceitação plena da ‘mensagem do Cristo’. Os iluministas asseguram que o povo instruído é um povo que sabe escolher e consolidar suas liberdades, unidos rumo à igualdade e o cultivo da fraternidade.
Utopia por utopia, Marx acusava os religiosos de cultivarem o “ópio do povo”. A religião enquanto entorpecente geral, enquanto ‘consolo psíquico’ (como dirá Freud em seu “Futuro de uma Ilusão”, rimando com os pensadores que previam o fim da religião devido ao progresso das ciências e divulgação do conhecimento), como uma promessa do futuro, no Além onde estão os benefícios, do que não existem aqui. Os pobres se sentem confortados e os ricos mantêm o jogo sujo, concedendo a ‘boa vontade’ de uma esmola ao fim do culto.
Coniventes (e até comandando) os religiosos souberam apoiar os reacionarismos e engessar e sufocar os movimentos de renovação política. A começar pelo Congresso de Viena, em 1815, no fim do apogeu imperial de Napoleão, quando a Revolução Francesa sofreu o peso da Reação da Santa Aliança, onde os monarquistas absolutistas (confiantes no “direito divino dos reis”) queriam o retorno do Ancién Régime, que a Revolução derrubara com união popular, guilhotina e sangue.
Acusando os iluministas pelos radicalismos da Revolução, os religiosos guiaram o retorno ao bom espírito medieval de obediência absoluta. Hierarquias e crenças deviam saciar o povo. Não idéias e informações. Queriam o estado de ignorância como forma de diminuir a inquietação dos povos. O saber, diziam, só traz desconforto. Melhor seguir cegamente. (Lembrar que, em plena Idade Média, poucos tinham acesso aos livros, inclusive a Bíblia. Somente os monges, devidamente educados e autorizados, poderiam ler)
Assim, os fascistas souberam com quem se aliar, em pleno século 20, quando observou-se uma sede igual de conservadorismo, com a união entre a Falange de Franco e a Igreja Católica, na Guerra Civil Espanhola, e o Catolicismo oficial no Estado Novo de Salazar, em Portugal, ou os acordos de Mussolini e o Papa, garantindo a concessão do Vaticano (Estados Pontíficos).
Mesmo aceitando que o ‘comunismo’ é o mais próximo da mensagem cristã, os religiosos perseguiram os comunistas, reduzindo-os a “ateus sujos”, como se a nova ordem social precisasse de rituais e sacramentos ao invés de cidadãos e obreiros. Uma vez alterada a (des)ordem social e edificado um socialismo (como dizia Engels) não há mais necessidade dos rituais e consolos ministrados pelos religiosos. A felicidade da própria vida social substituiria uma suposta felicidade na Vida Eterna.
Vida Eterna esta que é a mercadoria de troca dos religiosos quando abrem o seu ‘negócio’ nas vias públicas para atraírem os ingênuos, que não se sabem cidadãos e que acreditam em soluções rápidas e milagrosas, enquanto a vida prática mostra processos mais lentos e negociáveis. Passam a se envolver com rituais e esquecem a vida prática. O povo passa a desconhecer os líderes políticos, mais se preocupando com a Vida Eterna – a outra vida – e deixando de lado esta vida. Para o bem-estar dos práticos e ambiciosos, que sabem recompensar os religiosos com isenções e privilégios. O povo pensando no Outro Mundo não terá tempo e ânimo para consertar o mundo de agora.
E maior ousadia é a dos líderes religiosos que se tornam líderes políticos. Usam sua imagem carismática, mística, para atraírem votos para si mesmos ou colegas apadrinhados, com o objetivo de bloquearem votações da sociedade civil, de interesse variado, mas que julgam ir contra os Evangelhos, uma escrita de 2 mil anos que usam para guiarem suas vidas em pleno mundo pós-moderno!
E pregam tolerância! Desde que convenha aos interesses deles! Pois a tolerância nasce do livre pensamento. Voltaire não apreciava o cristianismo, mas deixa o livre discurso exatamente assim: livre. “Posso não concordar com suas palavras, mas defenderei seu direito de dizê-las”, dizia o pensador. “A tolerância é a virtude dos que não crêem”, diz um provérbio. Ou seja, o religioso não é tolerante. (A questão do pastor evangélico chutando a imagem da santa católica, o protesto dos muçulmanos contra as charges sobre o profeta Maomé num jornal dinamarquês...)
Um religioso quer um mundo sob os ditames de sua crença e não mede esforços para doutrinar e, até mesmo, eliminar. Vejamos uma teocracia. É o pior tipo de totalitarismo que pode haver! Um governo do corpo e do ‘espírito’, onde o Estado em nome da crença entra até nas entranhas da consciência individual e determina onde o ‘bom’ e onde o ‘mal’ – e pretende extirpar o “pecado”.
Quem diria que em pleno século 20 o mundo assistiria ao surgimento de teocracias? Vejam o Irã, o Afeganistão, a Arábia, onde castas religiosas bloqueiam governos civis e apelam para devoções milenares que se perpetuam às custas da miséria do povo. Religiões decrépitas que, se culturalmente legaram arte e folclore, hoje não passam de sistemas de opressão, principalmente contra as mulheres, ainda em status de objetos, de pertences dos homens, sendo comercializadas e abandonadas quando não as convenientes.
(continua...)
Escrito por leonardo de magalhaens às 20h03
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